Um domingo de sol, você faz o que? Quer ir a praia, ao
clube, ao parque. O pessoal da Folia de Reis Baeta Neves se reúne para fazer um
ensaio com muita emoção e animação. Eu e Amanda seguimos rumo à casa do senhor
Pedro Baldoíno, coordenador da folia. De repente, um vendaval e uma chuva como
há muito não víamos cair deu o ar da graça. Água do céu e na terra o povo já
estava reunido, aguardando nossa presença para dar início ao ensaio. Montamos
nossa aparelhagem para registro e assim a Folia deu início as toadas. Com muita emoção e fé, seu Juarez, o
embaixador da folia, ou seja, aquele que inicia as canções, começa a cantoria,
a viola puxa a melodia e os outros instrumentos e vozes entram na toada. Há um
esforço do pessoal da voz para se ouvirem visando timbrar as vozes, ou seja,
casar uma voz com a outra. Cerca de 40 minutos depois do início, deu-se uma
parada para comes e bebes e muitas risadas. O ambiente estava muito alegre, se
via que realmente aquelas pessoas estavam felizes de se encontrarem e
orgulhosas de fazer parte da folia de reis. Havia alguns parentes e amigos
assistindo ao ensaio. Após muito bate-papo, voltou-se para cantar mais algumas
toadas e ao final disseram que fazia muito tempo que não cantavam tão bonito
como naquele dia. Terminaram cantando a Oração pela família, muito famosa, que
diz “abençoa senhor as famílias amém, abençoa senhor a minha também”. Neste
clima de muita amizade e fé encerrou-se o ensaio e ficamos extremamente gratas
em participar de um momento tão mágico e importante para nós como pessoas e
como pesquisadoras.
Esta obra foi selecionada pelo Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais – VAI-SBC para produção de livro sobre grupos que trabalham com manifestações da cultura popular na região do ABC
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Bate papo com José Lemes - Congada do Parque São Bernardo
Mais conhecido por Zé Neguinho, 50 anos e nenhum cabelo branco.
Eu, 31 anos, vários reflexos brancos pela cabeleira!
Eu, 31 anos, vários reflexos brancos pela cabeleira!
Despedindo-se do inverno, um dia nublado, um corpo cansado, mas
uma alma ativa e aberta para o que pudesse acontecer. Assim eu me dirigi à casa
de Dona Cotinha, quase 90 anos e uma disposição incrível, para conversar com o
seu Ditinho. Chegando lá, não o encontrei, todavia para minha surpresa e
alegria o senhor José Lemes me recebeu, de peito aberto para uma conversa
franca e descontraída. Começou me contando dos avós, de como eles se
conheceram, que sua avó nasceu no dia 13 de maio de 1888, dia da assinatura da
lei Áurea, que libertou os escravizados, entretanto não deu condições aos
negros de terem uma vida digna, já que não tinham dinheiro, casa, trabalho. Ele
me disse, com a maior franqueza: “a igreja foi conivente com a questão da
escravatura, via tudo e não fazia nada”.
A cidade de Cambuquira, em Minas Gerais, é muito
representativa nesta questão, pois foi um local doado aos negros para que
pudessem começar a vida libertos, mas houve muita discórdia com os brancos para
que conseguissem permanecer no local.
Seu Zé Neguinho vira para mim e pergunta: “você sabe o
motivo pelo qual as cidades, principalmente as que possuíam escravizados têm em
sua grande maioria a Igreja Matriz e a Capela? Eu não tinha a menor ideia e
muito sabiamente, seu Zé me explicou que os donos das fazendas faziam suas
festas religiosas na igreja e os negros somente podiam entrar na capela, seria
como se a igreja houvesse construídos as capelas para os negros e as igrejas
para os brancos. Todavia, o negro ia para a capela fazer seus batuques e os
brancos ficavam encantados com a sonoridade, mas não iriam entrar em nenhuma
hipótese na capela, por isto com o tempo os negros foram permitidos a
participar das festas religiosas, para ao término destas, poderem fazer a festa
profana, com batuque e por isto também a igreja “dá” aos negros os santos
negros: São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, para trazer os negros para a
fé católica.
Várias vezes seu Zé Neguinho me disse: “não adianta a gente
dançar congada e não saber a história por trás da congada, a gente precisa
entender como chegamos aqui.” Começamos a voltar a falar da família, que os
avós já faziam parte de congadas em Minas Gerais e em 1963, os pais decidem
sair de Monsenhor Paulo e vir para São Paulo, em busca de melhores condições de
vida. Moraram em algumas cidades do interior, em Santo André, até chegar em São
Bernardo do Campo, no Parque São Bernardo. Sempre quando voltavam a Minas
Gerais, iam para as festas de congadas, dançar se divertir, até que um dia, seu
Zé Neguinho com cerca de 20 anos pensa em montar a congada da família. Pela
questão de hierarquia, ele fala primeiramente com seu pai, que fica meio
relutante com a idéia, depois com seu irmão mais velho, seu Ditinho e assim
iniciam a Congada do Parque São Bernardo, há princípio apenas com membros da
família Lemes, que na época eram 7 irmãos de sangue e 1 de criação. Muito
interessante também as colocações de seu Zé Neguinho com relação a fé que seu
pai tinha e que fez com que conseguissem sair de situações muito difíceis.
Outro aspecto muito interessante de nossa conversa foi a
visita ao Centro de Memória da Família Lemes, que está sendo finalizado, em um
terreno próximo a casa da família. Seu Zé Neguinho fez e está fazendo toda obra
sem nenhum auxílio financeiro. O sonho dele é tornar o local um centro
cultural, onde tenha aulas de música para as crianças, aula de tecnologias para
os idosos, seja um espaço para discussão das questões do negro, de reunião de
diversas culturas: hip hop, rap, congada, samba, para produção de saraus. Há
uma vista incrível da comunidade como um todo, é um local muito representativo
e além de todos estes aspectos, haverá um espaço para contar a história da
família Lemes.
Nossa conversa finalizou falando da questão do negro, como a
raça está desarticulada, não há união e prova disto, segundo seu Zé Neguinho, é
ver que na maioria das escolas de samba hoje não há negros ocupando altos
cargos, o dia 20 de novembro, que é o dia da Consciência Negra, não há um
movimento ele mesmo disse que acha inútil o feriado, porque não trouxe
consciência alguma sobre a questão.
Voltei para casa muito feliz, com a sensação de que em
apenas uma tarde de domingo eu aprendi tantas coisas, que anos e anos não me
dariam e o quão rico e iluminado é cada ser humano!
domingo, 14 de setembro de 2014
CENTRO DE REFERÊNCIA DAS CULTURAS POPULARES TRADICIONAIS
Dia 14 de setembro foi marcado pela reabertura do Centro de Referência das Culturas Populares Tradicionais na cidade de São Bernardo do Campo, que em 1980 funcionava com o nome de Centro de Pesquisa do Folclore, coordenado pelo pesquisador Antonio Perez. Havia o cadastramento de grupos folclóricos locais, uma biblioteca especializada no assunto e um acervo de mais de 1.000 peças. No final da década de 80, início dos anos 90 o centro é fechado. Reabre em um momento muito importante, no qual as culturas populares estão ganhando cada vez mais destaque, na semana onde o Carimbó, manifestação da cultura popular da região Norte do país foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
O centro funciona no Casarão do Parque Chácara Silvestre, que passou por um grande restauro para receber novamente as peças do acervo. Ficamos muito felizes em ver no acervo bibliográfico o livro de nosso amigo jornalista e pesquisador Walter de Sousa Junior - Moda Inviolada: uma história da música caipira. Além do acervo bibliográfico, há exposições, peças de cerâmica, vídeos, fotos sobre grupos que trabalham com cultura popular principalmente na região do ABC. Funciona de quarta a domingo, das 10h às 16h.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
O Livro
Em meados de outubro de 2013, Amanda Martins e Renata Sales tiveram a ideia de escrever um projeto para concorrer ao VAI da prefeitura de São Bernardo do Campo. Ambas são fascinadas pelas questões da cultura popular e sentiram a necessidade da produção de um livro que contemplasse os grupos da região do ABC - já que as duas moram em São Bernardo do Campo - ressaltando a história dos mesmos no contexto da vida urbana e as músicas utilizadas nestas manifestações. A publicação objetiva todas as pessoas que gostam do assunto, mas de sobremaneira será um livro para auxiliar os professores a trabalharem a cultura popular no contexto escolar.
Agradecemos de antemão a jornalista e pesquisadora da cidade de São Caetano do Sul, Priscila Gorzoni, autora do livro Abre as portas para os Santos Reis, que generosamente nos auxiliará na produção do livro, em especial o capítulo sobre Folia de Reis.Também temos gratidão enorme à professora da Universidade Federal do ABC, Andrea Paula dos Santos, que também nos auxiliará na produção do livro.
O primeiro evento que fomos após a contemplação pelo prêmio foi o encontro de Folia de Reis, que aconteceu em 05 de janeiro de 2014, na cidade de São Bernardo do Campo.
Agradecemos de antemão a jornalista e pesquisadora da cidade de São Caetano do Sul, Priscila Gorzoni, autora do livro Abre as portas para os Santos Reis, que generosamente nos auxiliará na produção do livro, em especial o capítulo sobre Folia de Reis.Também temos gratidão enorme à professora da Universidade Federal do ABC, Andrea Paula dos Santos, que também nos auxiliará na produção do livro.
O primeiro evento que fomos após a contemplação pelo prêmio foi o encontro de Folia de Reis, que aconteceu em 05 de janeiro de 2014, na cidade de São Bernardo do Campo.
FOLIA DE SANTO REIS – FÉ, TRADIÇÃO E FESTA
4º ENCONTRO DE FOLIAS – SÃO BERNARDO DO CAMPO – 05/01/2014
O dia de Santo Reis é 06 de janeiro, mas para que a
população pudesse participar da festa, o quarto encontro de folia de reis de
São Bernardo do Campo foi realizado no domingo, dia 05. Um dia assim meio
indeciso, o sol não sabia se queria ou não participar da festa. O certo é que
vieram várias companhias: de São José dos Campos, de Itaú de Minas, o pessoal
do Divinópolis da folia Estrela Guia (SBC) e a Folia de Reis do Baeta Neves (SBC).
Este folguedo ressalta a fé, a dedicação dos participantes, a devoção e o amor
a esta tradição. A população de São Bernardo realmente estava emocionada ao ver
a apresentação das folias. O sol resolver aparecer no momento da procissão.
Castigou a temperatura, mas quem cantou não sentiu. O povo acompanhou, cantou,
dançou, rezou e sorriu. Uma senhora pagou sua promessa, segurando a bandeira de
uma das companhias, momento muito emocionante, misturando a cultura e a fé do
povo brasileiro.
sábado, 6 de setembro de 2014
Quem é o Samba Lenço de Mauá?
O Grupo Samba Lenço de Mauá existe há mais de 50 anos. É uma manifestação que compõe o samba rural paulista, também chamado samba de bumbo, já que com o tempo além de ocorrer na zona rural, passou a ocorrer também na região urbana, sendo elemento característico o uso do bumbo. Este samba foi muito pesquisado por Mário de Andrade na década de 30.
Samba é o nome de muitas manifestações populares no Brasil, em toda parte, onde a mão de obra escrava sustentou a economia. No século XIX as fazendas de café trouxeram para o Vale do Paraíba e o Oeste paulista várias dessas manifestações, como o jongo, o batuque e o samba de roda.
Elas têm em comum o uso da percussão, o improviso de cantigas, a dança de pares, em fileiras e em rodas, sobretudo o gesto característico, apenas dançando, a umbigada, o samba, elementos que fizeram com que a dança recebesse o nome de samba.
A dança comandada pelo bumbo e a “moda” tirada pelo puxador, põe em movimento duas filas de sambadores, primeiro com o convite dos homens às mulheres, e depois delas aos homens, organizando-se em pares. Era tradição que o convite para o parceiro fosse o aceno de um lenço branco, herança dos bailes da casa grande, mas às vezes basta uma vênia em seu lugar.
As modas cantadas fazem parte de um repertório conhecido, com temas religiosos, da vida cotidiana, do imaginário de um tempo antigo e histórias de escravos. Assim o samba lenço preserva o patrimônio de uma memória ancestral.
Veja mais em: www.sambalenço.com.br
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Samba Lenço no SESC Itaquera
Como diz a canção do Samba Lenço:
Quer ir mais eu vamo!
Quer ir mais eu vambora!
domingo, 17 de agosto de 2014
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